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Harvey: um amante da vida do Suriname para Nova Bréscia

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Harvey tem 54 anos de idade, e uma história que poderia render um livro. Há cerca de três meses, ele é um funcionário do Banrisul, atuando na agência de Nova Bréscia, e morando em Estrela, mas o que chama a atenção na sua história, é seu local de nascimento: Suriname.
Com o Brasil, Harvey Glenn Graves tem uma longa história de amor, mas ele é um “espírito livre”, um homem do mundo, que já morou em quatro países e fala três idiomas fluentemente.

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O Suriname
Harvey nasceu em Paramaribo, a capital do Suriname, colonizada pela Holanda. Um país de 560 mil habitantes, que faz divisa com a Guiana, Guiana Francesa, Brasil (Pará) e Oceano Atlântico, e que conquistou sua independência em 1975. Lá, ele morava com os pais e com a irmã, seis anos mais velha. Estudou, trabalhou, construiu sonhos.
Com pouco mais de 20 anos de idade, entrou para as Forças Armadas do Suriname. “A promessa era que, para o primeiro e segundo colocado no concurso, seria dado um curso da Academia na Holanda. Eu não sou estudioso, nunca fui, mas tenho facilidade de aprender”, pontua. Prova disso foi seu desempenho no trabalho: passou em 1º lugar, e ficou na espera do tão sonhado curso na Holanda. Um curso que nunca veio. Quando viu que o curso não passaria de uma promessa, Harvey pediu demissão. “Negaram minha demissão duas vezes. Até que, por acaso, encontrei com o Ministro das Forças Armadas, expliquei minha situação pra ele e minha carta de demissão foi emitida”, lembra. Fora das Forças Armadas, Harvey foi trabalhar em outro lugar. Trabalhou duas semanas no Banco Central e foi demitido porque eles entenderam que Harvey ainda tinha alguma ligação com as Forças Armadas. “Eu ganhava bem por ter trabalhado lá, isso é verdade. Mas por ter trabalhado no Ministério da Segurança Pública, todos me respeitavam, mas ao mesmo tempo me temiam, porque naquela época, era como se fosse uma ditadura, e as pessoas tinham medo de dar emprego para quem tivesse atuado nas Forças Armadas”, explica. Sem conseguir emprego, Harvey resolveu embarcar em uma aventura, e junto com alguns amigos, veio conhecer o Brasil. A viagem para Belém do Pará deveria durar de 10 a 12 dias, mas Harvey ficou um mês no país. “Na hora de voltar, mandei meus amigos pra casa e fiquei por aqui, aproveitando, mas por conta própria”, lembra. A língua oficial do Suriname é o neerlandês (holandês), e Harvey, nada sabia do português.
Harvey voltou para o Suriname, mas nunca esqueceu as terras tupiniquins. “Voltei e fiquei procurando emprego, mas sempre sonhando com o dia que conseguiria voltar para o Brasil”. E nove meses depois, nosso aventureiro estava de volta.

Vida em solo brasileiro
Trocar a comunicação em neerlandês e passar a falar português não foi uma tarefa muito fácil no início. “Um advogado me disse para comprar o jornal todos os dias e lê-lo, para treinar o português. Um ano depois, eu tinha um monte de jornais em casa e ainda não falava muito bem o idioma”, conta. Foi a prática que deixou Harvey fluente no português.
No Brasil, Harvey morou também no Rio de Janeiro, onde trabalhava com turismo. “Fui um dos primeiros a fazer os passeios guiados ao Morro Dona Marta”, conta. Por cerca de um ano, ele viveu e trabalhou na Cidade Maravilhosa, mas decidiu voltar para o Norte, já que com as mudanças na cotação do dólar, o turismo começou a se tornar uma área complicada.
De volta ao Pará, Harvey passou a trabalhar com garimpo. “Eu auxiliava na burocracia e exportava máquinas e outros produtos. Foi uma época em que eu tinha um bom nível de vida. Não estava rico, mas ganhava bem”, comenta.

Vida na Europa
No Brasil, Harvey conheceu uma mulher com quem teve um relacionamento que lhe rendeu dois filhos. Ele prefere não revelar o nome dos herdeiros, mas conta que a filha mais velha, de 29 anos, é enfermeira, e tem um filho de 11 anos e uma menininha que nasceu no último dia 18. O segundo filho é um rapaz, hoje com 27 anos que é engenheiro civil. Os filhos e netos moram em Belém.
Depois de um tempo, o relacionamento acabou e Harvey resolveu pegar a estrada. Ou o céu, neste caso. Em 1990, mudou-se para a Holanda, onde também reside a irmã dele. Lá, ele trabalhou com a fiscalização de importações, mas depois de um ano, resolveu voltar para o Brasil. “Lá é muito frio. Tem um vento insuportável, e as pessoas são reservadas, frias. Não são receptivas como no Suriname ou no Brasil. Aqui, quando dizem que é frio, eu tenho pena das pessoas. Frio é lá, aqui não”, brinca.
De volta ao Brasil
Harvey voltou para Belém e continuou trabalhando com exportação. Foi lá que conheceu outra pessoa, com quem teve seu terceiro filho. O rapaz hoje tem 24 anos e é jornalista. O relacionamento acabou, e, em 2009, Harvey decidiu viajar novamente, desta vez, para os Estados Unidos. Lá, ficou com uma americana que conheceu quando ela estava de férias no Brasil, e depois de quatro meses, voltou ao Brasil.Em Belém, ele seguiu o trabalho com exportação, mas eu 2012, teve que deixar tudo para voltar ao Suriname.

Voltando à terra natal
O pai de Harvey faleceu em 2006, e a mãe dele ficou morando no Suriname, com uma filha na Holanda e outro no Brasil. Em 2012, ela adoeceu, e Harvey fui cuidar dela. “Ela tinha demência, às vezes queria me bater, outras não me reconhecia, foi uma época muito difícil. Minha irmã se propôs a mandar dinheiro, mas não queria vir cuidar dela, então eu fiquei lá”, explica.
Quando fazia um ano que Harvey estava cuidando da mãe, ele a internou em uma clínica. “Ela não queria ir, então sugeri que fossemos passear e conhecer o lugar. Ela adorou e quis ficar”, conta. Ele ainda ficou mais quatro meses no Suriname, dando toda a assistência e carinho para a mãe, e vendo como seria sua adaptação. Quando percebeu que ela estava bem na clínica, voltou ao Brasil, mas o trabalho com as exportações já estava complicado, tanto tempo fora fez com que ele perdesse a clientela e o dólar, subindo, dificultava ainda mais as vendas.

O Vale do Taquari
Quando estava no Suriname, Harvey conheceu uma mulher pela internet, que virou sua conselheira quanto a doença da mãe. Mas o status deste relacionamento mudou. “Ela me convidou para conhecer o município de Estrela e eu vim. Voltei ao Brasil, passei em Belém para ver meus filhos e vim para cá”, conta. Um mês depois, Harvey voltou ao Suriname, para organizar sua mudança definitiva para o Vale do Taquari. Desde 2013, ele mora em Estrela, com a companheira, que é professora.

Concurseiro
Na região, ele buscava emprego, mas seu Ensino Médio realizado no Suriname não era válido no Brasil. A companheira sugeriu que ele prestasse o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para a obtenção do certificado de Ensino Médio, e em janeiro de 2014 ele estava certificado e buscando emprego. “Depois de mais velho virei concurseiro”, brinca. Passou em diversos concursos, entre os quais o Banrisul, no qual passou de duas formas.
Através das cotas, ficou em primeiro lugar, mas perdeu a vaga por nunca ter recebido a convocação para a entrevista. Na classificação ampla, ficou em 7º lugar, colocação que lhe rendeu o emprego que tem hoje.Ele segue residindo em Estrela, mas vai para Nova Bréscia na segunda-feira, fica até quarta, quando volta para Estrela e no dia seguinte volta para Nova Bréscia, ficando até o final da semana.

A convivência no Brasil
Brasileiro naturalizado, Harvey diz que é mais brasileiro do que os que nascem aqui. “Eu tive a opção, eu escolhi este país, vocês não”. Apaixonado pelo Brasil, ele diz que nunca se arrependeu do caminho que trilhou, nem das escolhas que fez. “Nunca me acostumei com a comida brasileira, que é muito açucarada, tem muito sal, muita gordura, por isso faço minha própria comida”, explica.
A mãe de Harvey faleceu há dois anos, mas ele mantém uma casa no Suriname, até porque o filho caçula gosta muito do lugar. Apesar de não ter parentes por lá, ele ainda visita o país para rever amigos e conhecidos. E com a irmã, que está na Holanda, e com os filhos, que estão em Belém, o contato é constante.
Harvey diz que o povo brasileiro é muito preconceituoso, mas de uma forma diferente. “Uma vez, quando trabalhava na secretaria da Educação de Estrela, uma senhora me perguntou em que obra eu estava trabalhando. Até fiquei na dúvida, imaginei se chamavam a secretaria de Educação também de obras, mas depois, percebi que ela achou que eu trabalhava em alguma construção. Em Porto Alegre, um taxista puxou conversa e perguntou onde eu iria trabalhar. Falei que iria para o Banrisul e ele perguntou se eu iria ser segurança. O brasileiro não é preconceituoso no sentido de não falar contigo porque você é negro, é preconceituoso no sentido de, por você ser negro, achar que só pode desempenhar trabalhos braçais, que não requerem intelecto. E isso machuca. Não existe pessoas burras, são todos inteligentes, basta querer desenvolver esta inteligência”, frisa.
Há 30 anos morando no Brasil, ele fala e escreve o português melhor do que muitos cidadãos brasileiros, apesar de conservar um pouco do sotaque. Este aventureiro morou em países de primeiro mundo, como a Holanda e os Estados Unidos, mas ainda prefere o Brasil. “Eu não critico o Brasil, critico os brasileiros, que reclamam de tudo mas não buscam o que querem. O Brasil é um país muito rico, tem de tudo, infelizmente tem também corrupção, mas é um país maravilhoso. O clima é agradável, as pessoas são receptivas e se tem muitas oportunidades”, finaliza.

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